15h00 15 fev 20
Ontem foi dia de São Valentim, também repararam? Olhem que coincidência! Mas também com tanta montra cheia de vermelho, bonequinhos kitsch e postais florescentes, como não reparar há quase um mês que ele estava mesmo aí!
Passaram bem? Divertiram-se? Foram finalmente àquele restaurante, onde andam a tentar reserva há seis meses? Receberam muitas prendas e flores, e bilhetes para aquela banda que toca aquela canção fantástica? Que bom para vocês, já eu tive de ir para o teatro.
Não, não me estou queixar. O teatro é um sítio incrível para se trabalhar, de um modo geral é um lugar óptimo para se estar. Não me estou a queixar de nada, nem a fazer uma ponte para que o teatro seja o meu verdadeiro amor, porque no fundo até é ele que fica comigo grande parte das noites.
“Anda, vamos viajar naquela semana!” – Não posso, estou em ensaios. “É sábado à noite, vamos ficar no incógnito até fechar!” – Não me dá jeito que amanhã faço matiné. “No próximo fim de semana vamos passear os dois!” – O próximo fim de semana ainda estou em cena.
Que belo amante me saiu, esse safado do teatro, esse grandessíssimo sedutor com idade para ter juízo. Fica-me com as noites e com as tardes também, juro-vos. Então sobram as manhãs! Mentira, no fundo ele nunca larga, nunca fica longe. Se não estamos nós no teatro, está o teatro lá por casa, nas folhas que devia estar a decorar, nos livros que devia estar a ler. Ele é persistente e sei que no fundo ele queria ser exclusivo.
“Estás pensativa e com o olhar distante!” – Pois claro, com tanta folha A4 para por na cabeça, não devo estar com o pensamento aqui. Quase que põe em causa a minha verdade, a verdade que lhe estou a dizer, e depois faz-me sussurrar baixinho e entre os dentes aquela fala mais matreira.
E as datas? Aquelas que têm de se conjugar com outras datas de outras situações também amadas? Fica o amor principal a achar que é tudo drama.
Faz-me chegar tarde a casa com o pensamento noutro lugar, com vontade de voltar para ele, porque há sempre algo que ficou pendente, algo que podia fazer.
É uma espécie de amante, um amante meio amado que às vezes deixa angústia: quer demais sem pedir, e depois finge que não quer.
No fundo também gosto que seja assim, e sobre os próximos anos, se continuar desta maneira, será uma maneira feliz.